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Antes de entender as varizes, você precisa entender a circulação
Para explicar por que surgem as varizes, eu sempre começo pela circulação das pernas — porque a veia dilatada que aparece na pele é só o resultado final de um processo que costuma levar muitos anos. Muitas pessoas acham que as varizes aparecem simplesmente porque “as veias dilataram”, mas a história é um pouco mais profunda do que isso.
Você não precisa decorar nomes difíceis nem entender anatomia em detalhes. Basta compreender um princípio importante: o sangue precisa subir das pernas até o coração o tempo todo, mesmo contra a gravidade. E isso não é uma tarefa simples.

Imagine subir uma montanha carregando um balde de água
Imagine que você precise subir uma montanha carregando um balde cheio de água. Se não existisse nenhum apoio pelo caminho, bastaria um pequeno descuido para toda a água voltar montanha abaixo.
Agora imagine que existam vários degraus, e em cada um deles uma pequena porta. Quando você sobe um degrau, essa porta fecha. Assim, mesmo que você pare para descansar, a água não consegue voltar.
As veias funcionam de maneira muito parecida. Dentro delas existem pequenas estruturas chamadas válvulas venosas, que funcionam como portas de sentido único: permitem que o sangue suba em direção ao coração, mas impedem que ele retorne. Enquanto essas válvulas funcionam normalmente, a circulação acontece de maneira eficiente.

O coração não faz todo o trabalho sozinho
Muitas pessoas imaginam que é o coração quem empurra o sangue para cima. Na verdade, quando falamos da circulação das pernas, existe outro “motor” muito importante: os músculos da panturrilha.
Por isso, a panturrilha é conhecida como o segundo coração. Sempre que você caminha, sobe escadas ou movimenta os pés, esses músculos apertam delicadamente as veias profundas. Esse movimento empurra o sangue para cima, e as válvulas impedem que ele volte. É um sistema extremamente inteligente: cada passo ajuda sua circulação. É justamente por isso que caminhar faz tão bem para quem tem doença venosa.
💡 Você sabia? Quando passamos muitas horas sentados ou em pé, movimentamos muito pouco a panturrilha. Isso faz com que o sangue fique mais parado nas pernas, aumentando a sensação de peso e favorecendo o aparecimento dos sintomas.
O que acontece quando as válvulas deixam de funcionar?
Agora imagine que uma dessas pequenas portas pare de fechar completamente. Sempre que o sangue sobe, uma parte dele começa a voltar. Esse retorno recebe o nome de refluxo venoso.
É justamente esse refluxo que está por trás da maioria dos casos de insuficiência venosa crônica. No início, você normalmente não percebe — a alteração é silenciosa. Mas, aos poucos, o sangue vai ficando acumulado dentro das veias, a pressão aumenta, as paredes das veias começam a se distender e, lentamente, elas vão ficando mais largas, alongadas e tortuosas. É assim que surgem as varizes.

As varizes aparecem de um dia para o outro?
Não. Na grande maioria dos casos, elas se desenvolvem lentamente. Algumas pacientes levam anos para perceber as primeiras alterações; outras notam apenas pequenos vasinhos. Com o passar do tempo, esses vasos podem aumentar de número, novas veias podem aparecer e os sintomas tornam-se mais frequentes.
É por isso que muitas pessoas me dizem: “Eu sempre tive algumas veinhas, mas agora parece que piorou muito.” Na realidade, a doença costuma evoluir de maneira progressiva.
Toda variz é igual?
Não. Existem diferentes tipos de alterações venosas, cada uma com características próprias, que podem exigir uma estratégia de tratamento diferente. De forma simplificada, divido essas alterações em quatro grupos:
1. Vasinhos
São vasos extremamente finos, superficiais e avermelhados ou arroxeados. Costumam causar principalmente incômodo estético.
2. Microvarizes
Também chamadas de veias reticulares. Possuem calibre um pouco maior e frequentemente alimentam os vasinhos.
3. Varizes calibrosas
São veias maiores, mais dilatadas e tortuosas. Podem causar sintomas importantes e comprometer a qualidade de vida.
4. Insuficiência das veias safenas
Em muitos pacientes, o verdadeiro problema não está nas veias que aparecem na pele, e sim em veias maiores e mais profundas, como a safena magna ou a safena parva. Essas veias podem apresentar refluxo e alimentar diversas varizes menores. É justamente por isso que o exame Doppler é tão importante: ele permite descobrir a origem do problema.

Por que algumas pessoas desenvolvem muitas varizes e outras não?
Essa é uma excelente pergunta, e a resposta envolve vários fatores — alguns podemos controlar, outros não. Vou detalhar os principais fatores de risco em outro capítulo deste guia, mas já adianto que a hereditariedade é um dos mais importantes.
Se seus pais ou avós tiveram varizes, suas chances de desenvolvê-las também são maiores. Isso não significa que elas sejam inevitáveis — significa apenas que você merece um acompanhamento mais atento.
⚠️ Atenção Ter poucas varizes aparentes não significa necessariamente que a circulação esteja normal. Da mesma forma, pessoas com muitas veias visíveis nem sempre apresentam insuficiência venosa importante. Somente uma avaliação clínica associada ao exame Doppler consegue identificar com precisão a origem do problema.
“Durante a consulta, gosto de comparar a circulação das pernas com um sistema hidráulico. Se existe um cano vazando, não adianta apenas limpar a água que aparece no chão — é preciso encontrar onde está o vazamento. Com as varizes acontece exatamente a mesma coisa: quando tratamos apenas a veia que aparece na pele, mas deixamos de identificar a verdadeira origem do problema, existe maior chance de novas varizes surgirem. Por isso valorizo tanto o mapeamento venoso: ele me permite identificar quais veias realmente precisam ser tratadas e quais podem ser preservadas.”
Em resumo
Ao terminar este capítulo, você já sabe que:
- o sangue precisa vencer a gravidade para retornar ao coração;
- as válvulas venosas funcionam como pequenas portas que impedem o sangue de voltar;
- a panturrilha atua como um segundo coração, ajudando a impulsionar o sangue;
- quando as válvulas deixam de funcionar corretamente, ocorre o refluxo venoso;
- esse refluxo aumenta a pressão dentro das veias e favorece o aparecimento das varizes;
- nem todas as varizes têm a mesma origem;
- identificar a causa da doença é essencial para indicar o tratamento mais adequado.
Entender por que as varizes surgem é o primeiro passo. O próximo é descobrir o que está acontecendo na sua circulação — e isso só uma avaliação completa mostra.